2 de Dezembro, 2021

Os amigos do Mário

Hoje, dia 5 de Setembro de 2020, pelas 16 horas, na SRO – Sociedade Recreativa Operária de Santarém, inaugurou uma exposição de pintura de pequenos formatos subordinada ao título de Os Amigos do Mário.
Os amigos são uma das riquezas da vida, mas a homenagem que fazem é a Mário Rodrigues, recordando o Homem, o Artista e também o Amigo.
Scalabitano, nascido em 1949 e falecido em 2018, deixando ‘a saudade do fogo do seu coração, afirma Júlia Fernandes no folheto de apresentação da inauguração.
Foi autor de inúmeras obras e participante em várias exposições, destacando-se aqui ‘As pedras são testemunhas silenciosas’ em que esculpiu em baixo ou alto-relevo a superfície das pedras da calçada e as dispôs em composições subliminares, tal como a trepadeira, em espiral e num ângulo de subida, lembrando-nos também uma serpente, terra de ancestralidade sibilante, Ophiusa. Numa cidade em que as pedras contam histórias muito antigas e se dispõem em formas a que os homens chamaram de góticas, Mário Rodrigues recuou ainda a tempos mais longínquos e exacerbou a sua incontornável sensibilidade e sabedoria.
Ser humano de grande sensibilidade e claramente humanista, revoltou-se contra a forma diplomática como foram noticiadas as condições e consequente morte de refugiados oriundos da Síria, desesperadamente tentando chegar a terra segura. Assim, a sua última escultura foi a de uma homenagem a todos os refugiados que se depositaram nas águas do mar procurando nova terra, novos sonhos. 

A escultura realizada em mármore, esculpida de um só bloco com aproximadamente 1,20 m de altura e 1 m de largura, pesando cerca de duas toneladas e meia encontra-se ainda no local onde foi parida pelo artista, no pátio da antiga escola de primeiro ciclo do Salvador, edifício no centro histórico de Santarém que acolhe a ‘Incubadora de Artes’ (IAS). Recorde-se a explicação que o artista deu para a escolha do mármore, pedra bastante pesada e simbolicamente a alusão ao peso excessivo dos barcos que transportaram refugiados e por outro lado, ao peso das consciências dos homens, da consciência do mundo. Os rostos arrancados à pedra têm os olhos fechados – como na morte.

Refugiados (pormenor), Mário Rodrigues

Palavras da Vice-Presidente da SRO, Manuela Marques, no seu pequeno mas acutilante discurso inaugural, apela à cidadania e aponta para os cidadãos como arquitectos do novo tempo, lembrando que a última escultura do pintor se mantêm no mesmo local, sujeita às intempéries, ao lixo e à ignorância humana, abortando assim, a cada dia, o recém-nascido que longe já da protectora incubadora, terá, quiçá?, um destino similar aos olhos cerrados dos rostos arrancados ao mármore.

Os amigos do Mário, um conjunto de vários artistas plásticos, entre eles Fernanda Narciso, António Canavarro, João Maria Ferreira, José Manuel Soares, Júlia Fernandes, entre outros, homenageiam-no recordando-o com emoção.
Em jeito de conclusão, gostaria aqui de voltar ‘à saudade do fogo do seu coração’, mencionado por Júlia Fernandes. Só me ocorre por agora, a afirmação do escritor Michael Ondaatje, no seu livro O Paciente Inglês: ‘(…) the heart is an organ of fire.’.
Efectivamente, o coração é um órgão de fogo.

José Manuel Soares, Amor Viral, 2020

 

 

 

 

 

 

 

(Imagem em destaque: Mário II, João Maria Ferreira, 2020)

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